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DAS DÚVIDAS PERENES QUE ASSALTAM OLHOS-LÂMINA


Sob as vestes de uma luz de qualidade inequívoca, nem fria nem quente, sem sombras, sem rastros, neutra com se algo pudesse ser efetivamente um quase nada volátil, monta-se um palco de representações.

 

Uma horizontal cortante organiza, na verdade escraviza olhos ao não dar-lhes outra chance que não seja lacerar o plano de uma ponta a outra. Olhos-lâmina. Corte, incisão, talho. Golpe de vista seco, abrupto, sem concessões. Memória ocular embrenhada em composições concretistas.

 

Deste abismo em 90 graus, mal disfarçado na platitude da superfície bidimensional, as tantas vertigens cromáticas e formais ironizam leituras rasas e instantâneas de base sociológica, agem sorrateiramente no sentido de obliterar a tola carência de sentidos imediatos. Pra que serve mesmo essa racionalidade tão esquemática, essa pauta cartesiana diária? Pare, olhe, entenda, consuma, ande em frente, esqueça. Circuito robotizado contra o qual as tramas internas de Homogenia ardilosamente armaram um sequestro.

 

Aqui, nos interstícios das diferenças entre os aparentemente iguais, repousa boa parte da metafísica que nos ronda, que nos forma e nos desorienta nesse caminhar errático rumo a não sabemos o que. Espreita-se, no atrito sensual e maroto entre linhas, texturas, cargas cromáticas inesperadas e conteúdo, as intrigas da transcendência, essa infinita qualidade que um objeto tem de exceder as fronteiras da sua própria classe.

 

Mas eis que surgem atores. Árvores e homens sem árvores e sem homens. Do repouso absoluto deste todo horizontal conotam-se signos claros de mortandade. Logo ali, além da dor que se precipita desta ex-árvore e da (des)identidade deste volume humanóide que se oculta sob uma mortalha, bifurcam-se sentidos, repousam dúvidas perenes entre o ser, o ter sido e o vir a ser.

 

Nas calçadas de Homogenia flagram-se hiatos da vida, porções generosas da ancestralidade que apenas distraidamente haveríamos de perceber, mas que agora se precipitam sobre nós feito chuva quente em tarde gélida, instantes após serem desveladas pelos olhos-lâmina de um artista em compulsão de lucidez. Só as dúvidas nos iluminam.

 

Eder Chiodetto